Sexta-Feira, 30 de Outubro de 2020

Ex-comandante do Bope acredita que assassinato de Tenente por policiais foi acidente




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O tenente-coronel José Nildo Silva de Oliveira, ex-comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), disse não acreditar que o tiro que matou o tenente Carlos Henrique Paschiotto Scheifer, em maio de 2017, tenha sido proposital.

A declaração foi dada durante audiência de instrução conduzida pelo juiz Marcos Faleiros, da Vara Militar de Cuiabá, na tarde desta quinta-feira (11), na ação penal sobre o caso. Três policiais militares do Bope foram denunciados pelo Ministério Público Estadual. Segundo a denúncia, eles mataram o colega de farda para encobrir um outro assassinato, ocorrido durante operação policial.  

O crime ocorreu no dia 13 de maio de 2017 no Distrito de União do Norte, em Peixoto de Azevedo (a 691 km ao Norte de Cuiabá). Os policiais estavam em uma missão na cidade para combater uma quadrilha do “Novo Cangaço”. Segundo a denúncia, os policiais teriam matado o colega Scheifer para ocultar o assassinato de um acusado de roubo, identificado com Marconi Souza Santos. À época o tenente-coronel era chefe do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a quem Sheifer se reportava.

"Eu acredito que o tiro tenha sido acidental é não proposital. Tenho sentimentos como comandante, não de culpa, porque não foi eu que cometi o erro, mas de pesar. Hoje são quatro famílias destruídas. Eles erraram e assumiram o erro. Hoje a gente busca justiça e esse peso eu, como comandante, não queria estar aqui passando por isso", disse José Nildo.

José Nildo é a última testemunha de acusação a ser ouvida no caso. Já foram ouvidos, em audiência de instrução na semana passada, o cabo Alex Sander de Souza Vizentin, o sargento Antônio João da Silva Ribeiro, o segundo tenente Herbe Rodrigues da Silva, o tenente-coronel Jonas Puziol e o tenente-coronel Claudio Fernando Carneiro Souza. São réus na ação os policiais militares Lucélio Gomes Jacinto (acusado de atirar), Joailton Lopes de Amorim e Werney Cavalcante Jovino.

Depoimento - Conforme José Nildo, após a realização do laudo pericial, que ficou comprovado que o projétil alojado no corpo do tenente partiu de um fuzil portado pelo cabo Lucélio Jacinto, ele puniu o agente com 10 dias de detenção. "Eu o puni administrativamente, se não me engano foi 10 dias de prisão. Mas optei por não transferir ele de unidade, até porque não tinha nenhuma conduta para retirada dele da unidade”.

O comandante disse que perguntou aos oficiais o motivo de eles não terem revidado os tiros, quando a versão ainda era sobre morte acidental de Shcheifer. “Eu tinha interesse na verdade, só que nos preferimos todos acreditar na versão dos policias, até pela credibilidade deles. Mas a dúvida também pairava, por isso abriu procedimento para apurar”.

"Eu perguntei a eles por que não efetuaram os disparos e revidaram. E o Lopes me disse que na hora se preocuparam em socorrer o tenente", contou. No dia do assassinado de Marconi Souza Santos, integrante de uma quadrilha de roubo, o tenente Scheifer ligou para o comandante. 

"Houve muita coisa, muita informação. Mas eu digo com certeza que eu recebi a informação desse confronto. Até coloquei no grupo de WhatsApp dos oficiais do Bope. Que tinha sido efetuada uma morte e prisões, que participaram da operação outros policiais”. O comandante ainda negou que tenha ouvido falar de uma discussão entre Scheifer e os três acusados do envolvimento na morte. Isso porque testemunhas relataram durante inquérito policial que presenciaram o desentendimento entre a equipe e o tenente Scheifer.  

"Essa situação a gente ouve pela imprensa. Eu creio que não tenha ocorrido. Se tivesse ocorrido tinha tomado as ações necessárias. Se tivesse algum problema nessa ocorrência, eu teria tomado providências e não dado continuidade a ocorrência".

Segundo o Ministério Público, os fatos começaram com a perseguição da viatura da Polícia Militar, cuja equipe estava sob o comando da vítima, a dois automóveis - um Nissan Frontier e o outro um Mitsubishi L-200 Triton - nos quais estavam os suspeitos de roubo. Na ocasião, um dos veículos acabou tomando rumo ignorado e o outro perdeu o controle na estrada, quando quatro de seus ocupantes já desceram fazendo vários disparos contra os policiais.

A tentativa de prender os assaltantes que, inicialmente, parecia ter sido frustrada, acabou obtendo êxito no dia seguinte com apoio de outros militares que atuavam em cidades próximas. Um dos veículos foi localizado em um posto de combustível na cidade de Matupá e o condutor, identificado como Agnailton Souza dos Santos, foi preso.

Consta na denúncia que a partir das informações obtidas no interrogatório do acusado, a equipe de agentes liderada por Scheifer fez o cerco policial a um imóvel localizado em um bairro na cidade de Matupá, para prender outros suspeitos. Durante a ocorrência, um deles, que “supostamente” portava arma de fogo, teria tentado fugir e foi atingido por um disparo de fuzil pelo cabo Lucélio Gomes Jacinto, morrendo em seguida.  

“Conforme restou apurado nos presentes autos, a lavratura do supracitado boletim de ocorrência foi objeto de divergências e até mesmo de desentendimento entre a vítima, Tenente Scheifer, e o denunciado Cabo Lucélio Gomes Jacinto, pois, há fundadas suspeitas que fora inserida, no referido BO, declaração falsa, com o fim de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante, no que diz respeito às circunstâncias da morte do indivíduo Marconi Souza Santos”, descreveu o promotor de Justiça Allan Sidney do Ó Souza em sua denúncia.

Segundo ele, testemunhas relataram durante inquérito policial que presenciaram o desentendimento entre a equipe e o tenente Scheifer. Em um determinado momento, os denunciados teriam se reunido a portas fechadas para conversar sobre o ocorrido.  

Morte de Scheifer -  No mesmo dia, durante diligência realizada no local do primeiro confronto com os ocupantes dos veículos, o tenente Scheifer foi atingido por um disparo na região abdominal. Inicialmente, conforme o Ministério Público, os colegas de farda sustentaram que a vítima havia sido atingida por disparo feito por um assaltante não identificado, que estaria em meio à mata, do outro lado da rodovia.

Após a realização do laudo pericial, ficou comprovado que o projétil alojado no corpo do tenente partiu de um fuzil portado pelo cabo Lucélio Jacinto.  

“Somente após a balística descortinar que o disparo que atingira mortalmente o TEN Scheifer ter saído da arma de fogo portada pelo denunciado CB PM Jacinto, que então mudando a versão de outrora, ele alegou ter se equivocado da pessoa do TEN Scheifer com a do suspeito”, afirmou o promotor de Justiça.

Segundo ele, nenhuma das versões apresentadas pelo autor dos disparo foi plausível. “A vítima foi atacada frontalmente (o denunciado afirmara que ela estava de costas) e, em posição de descanso (quando não há perigo pela frente), embora o acusado assevere que o ofendido se apresentava em posição de tiro “vietnamita” (uma forma de posição de ataque”)”, sustentou.


Autor: AMZ Noticias com Midia News


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