Domingo, 31 de Maio de 2020

Eleitores cuiabanos rejeitam ação de Jair Bolsonaro que retirou Sergio Moro da Justiça




COMPARTILHE

Um silêncio quase sepulcral parecia se abater sobre a Praça Alencastro, em Cuiabá, às 18 horas da tarde desta sexta-feira (24), pouco depois do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) terminar seu pronunciamento transmitido em rede nacional para se defender das acusações do ex-ministro Sérgio Moro, segundo o qual o presidente tentou intervir pela substituição do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo.

As ruas vazias da cidade ainda em quarentena por conta da pandemia de covid-19 contrastavam com o cenário caótico com que se deparava qualquer cidadão que se arriscasse em abrir as redes sociais, o jornal, ligar a televisão ou o rádio.

Fogo cruzado seria talvez a melhor expressão para definir o depoimento de Bolsonaro que, ao ser exposto pelo ex-ministro, reagiu acusando Moro de ter condicionado a troca de Valeixo à indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que Moro negou logo em seguida.

Na praça Alencastro algumas poucas pessoas distante uma das outras zapeavam seus celulares cabisbaixas, como que esperando qual seria a próxima novidade. E as luzes dos aparelhos, azuis e mais fortes que as lâmpadas da praça, ofereciam um certo ar melancólico à cena.

O mais apressado ali era o office boy William Tofoli, que foi abordado pela reportagem em frente ao Palácio Alencastro, onde costumeiramente os táxis ficam estacionados. Com a mochila nas costas e máscara no rosto, William considerava que o presidente é exagerado. “A minha opinião de tudo isso?” disse ele mostrando surpresa. “Eu assisti pouco o depoimento porque estou trabalhando, mas acho que o presidente exagera, acaba sendo exagerado nas palavras, acho que ele poderia melhorar o jeito dele falar”, afirmou o trabalhador de 35 anos.

“Eu não sei te dizer se o Moro foi acertado em sair, mas eu acredito que ele tenha seus motivos”. William admitiu ter votado em Bolsonaro, mas também diz que sempre acompanhou a política como espectador. “A eleição dele foi uma esperança, mas é aquele ditado, se você quer conhecer uma pessoa dê poder a ela”, disse. Ele acredita que o momento “difícil para todo mundo” será superado, mas não sabe se votaria em Bolsonaro novamente. Uma das causas são as últimas ações do presidente. “Acho que meu voto ele não tem mais”, concluiu.

A incerteza e a confusão sobre o que ocorre em Brasília parece ser só mais um sintoma da tristeza que acomete a muitos trabalhadores cuiabanos e mato-grossenses. E os motivos dessa doença de espírito, menos voraz que o vírus, mas tão desestimulante quanto ele, começam na política e terminam na falta de perspectiva de futuro.

“Eu estou decepcionado com o presidente, eu votei nele”, disse Victor Nardoni, um técnico de enfermagem de 26 anos,  que acabara de terminar o expediente no hospital onde trabalha quando foi entrevistado. “Ele deu carta branca para o ministro Moro, mas na hora do ‘vamos ver’ ele quis trocar o diretor da PF, sem causa nenhuma”, desabafou Victor.

“Eu pensaria duas vezes em votar no presidente de novo porque na verdade nenhum político é totalmente honesto ou aparente ser; eu votei nele, eu sabia que ia ter uma coisa ou outra, mas só que uma coisa como essa [a retirada do diretor da PF] é uma coisa um pouco forte’, concluiu. Victor, em contrapartida, disse (depois de refletir alguns segundos) que poderia votar em Sérgio Moro em 2020.

Geifferson Carmem da Silva também disse que votaria no ex-juiz. Ele é o único na praça que não tem celular para acompanhar as notícias. Parte do que lê vem das capas de jornais em bancas e do que escuta em suas andanças. Geifferson é um morador de rua de 42 anos que se autodeclara alcoólatra e admite ter votado em Bolsonaro.

Ao ser interpelado pela reportagem para ser entrevistado questionou: “Mas eu posso falar? Eu sou morador de rua”. Com a resposta positiva de que poderia sim comentar os acontecimentos políticos recentes, Geifferson deixou a sacola que carrega consigo sobre o canteiro de tijolos ao redor do ipê da praça, retirou dela um maço de cigarros e pergunta “Eu posso fumar?”. O pedinte diz que Moro fez o certo porque antes da pandemia já existiam acusações contra Flávio Bolsonaro, filho do presidente investigado por corrupção.

“Antes do coronavírus já vinha com muito rolo”, diz. “Quando aconteceu esse negócio da epidemia eu esperava mais dele, ele abriu as pernas para o Trump, desculpa a expressão”, disse. “Ele está colocando como se ele fosse o cara, ele tem que entender que nós colocamos e nós tiramos, votei nele e estou decepcionado, eu apoiaria o impeachment com maior prazer”, conclui.


Autor: Lázaro Thor com Gazeta Digital


Comentários
O Norte Araguaia não se responsabiliza pelos comentários aqui postados. A equipe reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros.

Nome:
E-mail:
Mensagem:
 



Copyright - Norte Araguaia e um meio de comunicacao de propriedade da AMZ Ltda.
Para reproduzir as materias e necessario apenas dar credito a Central AMZ de Noticias