Segunda-Feira, 21 de Setembro de 2020

Das pegadas de Pedro Casaldáliga




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Quantos textos inflamados, desabafos solidários, quanta admiração de jornalistas mato-grossenses pelo bispo prelado emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, que no sábado, 8, fechou para sempre seus olhos sonhadores!

A obra de Pedro – é assim que ele gostava de ser chamado – é uma importante peça do alicerce social mato-grossense, sobretudo no Vale do Araguaia e mais especificamente na vastidão pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, da qual foi o primeiro bispo. Reverenciar Pedro é render tributo coletivo ao povo que lutou por um pedaço de terra pra viver em paz, plantar e colher; é aplaudir os indivíduos aldeados das várias etnias no rincão de sua Prelazia.

O adeus de Pedro não me leva a endeusá-lo, muito embora reconheça seu inegável papel em defesa da vida, dos direitos humanos, da família e da terra para o homem sem terra, nos moldes do bordão dos militares de 1964. Ele, em sua luminosidade pregava a redistribuição agrária, com enfoque socialista; eu, em minha modéstia, defendia (e defendo) a regularização do mosaico fundiário respeitando o direito de propriedade e a destinação das terras públicas agricultáveis aos que as desejam e são vocacionados para a atividade agrícola.

Mesmo questionando o posicionamento ideológico de Pedro, sempre o admirei e, na minha modéstia, ao longo de década, secundei (num plano infinitamente inferior) sua voz. Quem vive ou conhece bem o Araguaia sabe a luta pela posse da terra em Canabrava do Norte e Confresa, mais intensamente no Jacaré Valente; em Santa Terezinha, nos embates com a Codeara; nos assentamentos que resultaram em Borecaia que mais tarde seria a Nova Nazaré da Irmã Vita. Quantas lutas por lá, enquanto a Imprensa quase toda permanecia calada em Cuiabá e a classe política incompetente e má intencionada fazia vistas grossas – salvo um político aqui, ali ou acola?

O bispo de sangue quente, coração doce, mente arejada e bem-intencionado não tinha vozes ao seu lado. Morcegos políticos do PMDB, PT, PCdoB, PSB, PDT, PTB e outros partidos de esquerda ou quase, se grudavam nele. O mesmo fazia o peleguismo sindical. Esse oportunismo não resultava em reforço na sua luta. Pedro era citado como se fosse um anarquista querendo tomar as fazendas no Araguaia e transformá-las em cooperativas campesinas. Quanta inverdade!

Em dezembro de 2019 estive ao lado do leito de Pedro, num quartinho humilde na sua antiga casa em São Félix do Araguaia. Escrevi sobre o que vi. Desagradei. Mas, não poderia ficar calado ao vê-lo só, abandonado pelos morcegos, que se afastaram dele quando sua voz não mais se fazia ouvir, quando sua presença não abalava os poderosos.

Agora, vejo jornalistas aos montões, postando sobre Pedro. Inflamados textos sobre ele, escritos por figuras que se apresentam nas redes sociais com frases cunhadas: Sou jornalista e não me calo ou Antifascista ou ainda Supremo é Bolsonaro. Quanto oportunismo velhaco!

Os que sobem sobre o caixão de Pedro são os mesmos que nunca juntaram suas vozes ao grito dele em defesa do homem que buscava a terra. Ficaram calados no ontem, tanto quanto calados estão agora. Não apontaram com firmeza o dedo sobre os donos do poder, que são os responsáveis pelos desajustes sociais no Araguaia.

Qual o jornalista que chora por Pedro seria capaz de culpar o presidente da Assembleia Legislativa, Eduardo Botelho e seus pares pela falta de regularização fundiária naquela região? Ou seria corajoso suficientemente para denunciar a incompetência do governador Mauro Mendes em administrar aquela área, ou até mesmo de criticar os ex-governadores Pedro Taques, Silval Barbosa, Blairo Maggi, Dante de Oliveira, Jayme Campos, Carlos Bezerra e Júlio Campos pelo abandono a que relegaram a terra que Pedro defendia?

Qual jornalista que vê o caixão aos seus pés criticaria Wellington Fagundes, o biônico Carlos Fávaro, Jayme Campos, Carlos Bezerra, Leonardo Albuquerque, Rosa Neide, José Medeiros, Juarez Costa e Emanuel Pinheiro Neto, Neri Geller e Nelson Barbudo pela insensibilidade que demonstram no Congresso sobre as demandas da terra de Pedro?

Gostaria que os jornalistas que se calam sobre o Araguaia se calassem sobre o bispo que nos deixou. Seria atitude de mea culpa, que é a melhor para o momento. Saibam que Pedro era pó e que ao pó retornará; o que vibrava nos ares e tocava os corações era à força de sua ideia – essa não morrerá jamais, como não morreu ao longo do silêncio de jornalistas no ontem nem morrerá com sua gritaria no agora.

Respeitemos sua memória. Quem defendeu o Araguaia, que continue, pois há muitas batalhas e desafios a serem vencidos. Quem não esteve ao lado da razão nos enfrentamentos em Bordolândia e Ribeirão Cascalheira; quem não vestiu a camisa de Pedro pela qualidade de vida de sua gente não tem legitimidade para chorar seu adeus.

Quanto àqueles que optaram pelo silêncio cúmplice com a classe política que desprezou tanto o Araguaia a ponto de transformá-lo no Vale dos Esquecidos, por favor, parem com essa hipocrisia e corram para os braços de seus padrinhos que apedrejam o solo abençoado de Pedro, Norberto Schwantes, Irmã Vita, Lúcio da Luz, Antônio Paulo da Costa Bilego, Severiano Neves, Hélio do Carmo, Cacique Bedjai Txucarramãe, Marco Aurélio Fullin, Wilmar Peres de Farias, Maurício Tonhá, Padre João Bosco Penido Burnier, João Abreu Luz, Wolfgang Dankmar Gunther Hornschuch, Patrícia Vilela, Alexandre Quirino de Souza, Cícero Laranjinha, Domingos Pereira (Domingão), Valdon Varjão, Noely Paciente Luz, Rubens Rezende Peres, Paulo Alemão, Baú, José Elias Abdalla,  Calixto Guimarães, Iron Marques Parreira, José Queiroz, Raquel Coelho, Cacique Mário Juruna, Heronides Araújo, Railda de Fátima, Coronel Flaviano de Mattos Vanique e do Cacique Aritana.

Que a luz de Pedro na eternidade ilumine o Araguaia, ainda na sombra e sem ouvir em sua defesa as vozes que fazem do adeus ao grande pastor evangelizador e defensor do trabalhador rural e do indígena, um palanque tão ofensivo quanto a conduta da classe política com o Araguaia. Descanse em paz, Pedro. Continuo em oposição ao seu pensamento, mas creio que mesmo assim caminhando sobre as pegadas de seus ensinamentos.

 

EDUARDO GOMES DE ANDRADE é Escritor. Jornalista e Editor da Boa Midia


Autor: Eduardo Gomes de Andrade


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