Domingo, 25 de Outubro de 2020

Tu és Pedro! Casaldaliga, uma das mais internacionais personalidades de Mato Grosso




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Uma cova na terra, uma tosca cruz de madeira, um epitáfio poético e de fé, o olhar atento do rio Araguaia e a boa companhia de corpos de peões, prostitutas, indígenas, e um pequeno poema “Para descansar eu quero só esta cruz de pau, Com chuva e sol, Estes sete palmos e a Ressurreição”.

O cemitério dos marginalizados socialmente. Uma cova aberta na terra ao lado do rio Araguaia, nos arredores de São Félix do Araguaia. Essa é a morada do bispo prelado emérito daquela cidade, missionário clareatiano, poeta e contestador Dom Pedro Casaldáliga, ou simplesmente Pedro, que é como ele gostava de ser chamado.

A cerimônia religiosa do adeus, Pedro fechou os olhos para sempre em 8 deste agosto, na Santa Casa de Batatais, interior paulista, onde lutava contra  doenças que teimavam em minar sua resistência, já abalada pela idade. Seu sepultamento cumpriu sua vontade: queria repousar ao lados dos que em vida foram excluídos, e fazer de seu epitáfio mais um grito em defesa da igualdade social que foi uma de suas bandeiras.

Sua trajetória de vida se funde e se confunde com o Vale do Araguaia. Sua morte não significa o fim de seus ideais, que são levados adiante por outros religiosos e seguidores de seus ensinamentos. Pedro foi levado ao túmulo por amigos aldeados

Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade.

Alcançado pela expulsória aos 75 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner. Ao tirar a batina Pedro recebeu mais que a aposentadoria canônica: ganhou um bota fora. O núncio apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, sugeriu que ele deixasse São Félix do Araguaia, para não interferir na missão pastoral de seu sucessor. Pedro lhe deu uma banana imaginária e permaneceu naquela cidade que adota como sua.

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é quem responde pela Prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, outros municípios e o distrito de São José do Fontoura (de Campinápolis).

O CONVÍVIO – No ano passado, em São Félix do Araguaia, uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu antigo aposento, testemunhava sua vida na casa onde morou sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que faziam a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 foi seu braço direito. Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – foi o cão de guarda do prelado.

A QUEDA – Pedro enfrentava o Mal de Parkinson há 20 anos, era hipertenso e sofria de labirintite. Em 30 de julho de 2015 fraturou o fêmur da perna esquerda num acidente doméstico e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO). “Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revela padre Ivo acrescentando que a fratura foi decorrente de uma queda provocada pela debilidade causada pelo Mal de Parkinson. Desde então, a saúde foi definhando. Pedro passou, então, a se manifestar pelo olhar penetrante. Acompanhava tudo ao seu redor, mas imóvel, consciente que o ciclo da vida se fechava.

O HOMEM – Escritor, poeta, pensador, contestador e autor de cartas circulares conceituais. O pastor católico antes de sua enfermidade e mesmo após sua aposentadoria fazia do apoio aos movimentos sem terra e indigenista o alicerce de sua evangelização. Bispo em atividade, sorriu para a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa.

A violência tão comum nas áreas de colonização não excluía a região da Prelazia de São Félix.do Araguaia. Pedro presenciou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira, crime sem conotação política.

MARÃIWATSÉDÉ – Suiá-Missu foi a maior fazenda do mundo e pertencia à italiana Azienda Generale Italiana Petroli, a Agip, uma multinacional gigante da qual o Vaticano seria acionista. Nos anos 1970, o Vale do Araguaia era palco de invasões de terra, mas a Fazenda do Papa era mantida intocada em respeito a Pedro, padrinho dos sem terra.

 Uma parte dessa propriedade foi doada ao Brasil quando da Eco-92 no Rio de Janeiro – quando a Agip não tinha mais interesse econômico na região – e transformada na Terra Indígena Marãiwatsédé, dos xavantes, nos municípios de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia.

A parcela doada era habitada mansa e pacificamente por cerca de cinco mil posseiros rurais e urbanos que tinham a benção de Pedro; no local surgiu a vila de Estrela do Araguaia – chamada de Posto da Mata – que em dezembro de 2012 foi demolida quando de sua desintrusão para sua entrega aos xavantes. A ocupaação de parte da fazenda na área que mais tarde seria doada ao Brasil funcionava como filtro social que protegia a parte maior da propriedade, que nunca sofreu invasão.

LÍDER – Esquerdistas, reverentes, faziam silêncio para ouvi-lo. Direitistas, contrariados, mas sem um murmúrio sequer, o escutavam. Sem terra e posseiros de mãos calejadas o aplaudiam. Para os indígenas era um irmão.

Alma forte em sua fragilidade física, valente sem armas, corajoso pela força da fé cristã. Um pequeno gigante. Assim era Pedro. Dois de seus posicionamentos se chocam com a Santa Sé: defendia a ordenação de mulheres para o sacerdócio e contestou o celibato sacerdotal.

Mesmo de esquerda, Pedro certa vez disse que “o governo de Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres“. Nesse quesito, numa entrevista no final do ano passado, o padre Ivo discordou. Segundo ele, nos governos de Lula e Dilma, o prelado tinha mais apoio.

Reticente quanto ao presidente Jair Bolsonaro, o sacerdote avaliou que ele seja ruim para a Prelazia. Na enfermidade de Pedro, em São Félix do Araguaia se comentava que o chororô se deve ao fechamento da torneira que irrigava os cofres de organizações não governamentais ligadas a Pedro, e que se dizem defensoras dos indígenas no Araguaia e Xingu.

A comunidade acadêmica o reverenciou. Foi contemplado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.

TRAJETÓRIA – Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia.

Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade. Alcançado pela expulsória aos 75 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner.

Ao tirar a batina Pedro recebeu mais que a aposentadoria canônica: ganhou um bota-fora. O núncio apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, sugeriu que ele deixasse São Félix do Araguaia, para não interferir na missão pastoral de seu sucessor. Pedro lhe deu uma banana imaginária e permaneceu naquela cidade que adotou como sua.

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é quem responde pela Prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, outros municípios e o distrito de São José do Fontoura (de Campinápolis).

SÍNTESE – Enquanto a saúde e a idade permitiram esse homem que não se curvou ao regime militar de 1964 e que desafiou poderosos reis do gado no Vale do Araguaia pregou o Evangelho, semeou esperança, lutou por liberdade e a harmonia entre os opostos. O tempo se encarregou de minar sua estrutura física. Doenças e a sequela de uma queda o prenderam a uma cadeira de rodas.

Não ter nada. Não levar nada, Não pedir nada. E, de passagem, não matar nada. Somente o Evangelho, como uma faca afiada. E o pranto e o riso no olhar. E a mão estendida e apertada (Pedro Casaldaliga).

Sua fértil memória se volatilizou. O tremor das mãos dificultava até mesmo que tomasse um copo de água. Não escutava. As palavras teimavam em ficar sufocadas na garganta. Seu quadro de saúde se complicou muito em julho e nos começo deste mês.

Pedro enquanto lúcido teimava em não sair de São Félix do Araguaia em busca de tratamento médico. Debilitado, por decisão do superior de sua congregação claretiana, padre Mathew Vattamatta, foi removido para a Santa Casa de Batatais.  Vattamatta acreditava que ele se recuperaria e que passaria a morar na Clínica Geriátrica Domus Claret, em Batatais.

Tanto o Araguaia quanto o prelado passam ficando em São Félix do Araguaia. O rio se renova com as águas de sua nascente. Pedro vive para sempre na grandeza de seus exemplos.


Autor: Eduardo Gomes com A Boa Midia


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