Quarta-Feira, 04 de Agosto de 2021

Em busca da felicidade - Há exatos 80 anos, o Brasil se encantava com a primeira radionovela nacional




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Uma mulher de 18 anos descobre, em uma noite, que foi adotada e é fruto de um relacionamento extraconjugal de seu pai adotivo com a empregada da família. A partir daí, a vida muda por completo e eles enfrentam inúmeras tragédias pessoais. Essa era a trama de EM BUSCA DA FELICIDADE, primeira radionovela brasileira veiculada na Rádio Nacional, cuja estreia completa 80 anos neste sábado (5).

A história gira em torno do segredo por trás da adoção de Alice (Isis de Oliveira) pelo rico casal Alfredo Medina (Rodolfo Mayer) e Anita de Montemar (Zezé Fonseca). Carlota (Yara Sales), a empregada e mãe biológica da personagem, alega que não teria condições de criar a menina. Após a revelação de que Alice era filha de Alfredo e Carlota, os personagens enfrentam dramas em busca da felicidade alardeada no título.

Antes de 1941, os ouvintes já ligavam o aparelho para escutar tramas do radioteatro. Mas com Em busca da felicidade, o formato mudou. O texto original do cubano Leandro Blanco foi adaptado por Gilberto Martins e seguia o estilo das soap operas norte-americanas: capítulos estruturados, exibição periódica e veiculação de propaganda. A experiência bem sucedida no rádio começou a pavimentar a paixão do brasileiro pela dramaturgia, consolidada na televisão.

A ideia veio da empresa Colgate, patrocinadora da trama, que originalmente queria apenas comprar o horário da emissora para a transmissão e contratar o diretor Vitor Costa e elenco por conta própria. Mas a Nacional não aceitou e foi decidido que a produção ficaria a cargo da rádio.

Horário matutino - A novela foi transmitida no horário matutino, às 10h30, toda segunda, quarta e sexta, até o ano de 1943. O elenco criticou a faixa escolhida para a exibição da radionovela, por não ser considerado nobre à época. Mas o objetivo era alcançar um público específico: as donas de casa, consumidoras dos produtos da patrocinadora.  Uma campanha promocional, criada para aferir a audiência do programa, mostrou logo o impacto da novela.

Os ouvintes enviaram cartas com embalagens dos produtos da patrocinadora para receber, em troca, um álbum com o resumo da história, informações sobre os personagens e fotos dos atores. Mas o número de correspondências foi muito acima do esperado e a promoção foi interrompida porque os livretos se esgotaram.

Realidade x ficção -  Com elenco formado por estrelas como Rodolfo Mayer, Zezé Fonseca, Isis de Oliveira, Floriano Faissal, Yara Sales, Amaral Gurgel, Lourdes Mayer, Saint Clair Lopes, Brandão Filho e Luís Tito, entre outros, a novela mexeu com o imaginário do público.

A ficção se misturava com a realidade. Thiago Guimarães, pesquisador do Acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), conta que os atores eram constantemente confundidos com os personagens. Floriano Faissal, que interpretava o médico Doutor Mendonça, chegou a ser “consultado” por uma ouvinte que sofria com dores no fígado. Já Saint Clair Lopes foi abordado por um homem que achava que era parente de seu personagem.

A novela afetava de tal forma a vida dos ouvintes que uma mulher procurou os jornais ao constatar que se mudaria e não conseguiria saber o final da história, como relata Thiago Guimarães: Com o sucesso de Em Busca da Felicidade, a Rádio Nacional investiu pesado na produção das radionovelas e emplacou inúmeras tramas de sucesso - entre eles, O Direito de Nascer. Rose Esquenazi, jornalista e professora da PUC-Rio, lembra que, durante a transmissão desse clássico, os ouvintes da Nacional chegaram a enviar um enxoval completo para o fictício bebê de uma personagem, que nasceu durante a trama.

As principais radionovelas falavam de amores proibidos e mexiam com temas como infidelidade e preconceito entre classes sociais, entre outros. Tinham títulos que fortaleciam o melodrama. Rose reforça ainda que os ouvintes se identificavam com a história e comparavam a própria vida com a dos personagens, que tinham dramas verossímeis. "Havia uma certa relativização a partir da existência destas personagens", afirma.

Elenco estrelado e novos autores -  Como pelo rádio o público não podia ver os atores, os ouvintes consumiam revistas da época, que mostravam quem eram os artistas. Além disso, a Nacional fazia caravanas pelo país com o elenco, que também estrelava filmes da época. A sede da emissora, na Praça Mauá, recebia fãs que iam ao local só para ver os ídolos.

 Os artistas da Nacional influenciavam o público. O marketing da emissora conseguia lançar produtos novos alinhados com o perfil das estrelas do rádio, que faziam estrondo sucesso. Afinal, as pessoas queriam consumir o mesmo que os atores da época.A partir da explosão da dramaturgia no rádio, surgiram novos autores que começaram na rádio e depois foram para o teatro e a televisão, como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna e Janete Clair.

Certificado Unesco - Infelizmente, não há registro sonoro da radionovela. Na época em que foi ao ar, em plena Segunda Guerra Mundial, o material era gravado em acetatos à base de vidro que, devido à fragilidade, não resistiram ao passar dos anos. Este breve trecho, gravado anos depois em homenagem ao programa pioneiro, simula como seria a abertura da radionovela.

O prefixo, narrado por Aurélio de Andrade, locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, era assim: “Senhoras e senhoritas, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro apresenta Em busca da felicidade, emocionante novela de Leandro Blanco, anunciando também a parceria da Rádio com a Empresa de Propaganda Standard Ltda., responsável pela conta publicitária da Colgate-Palmolive no Brasil".

Mas parte dos roteiros da novela estão conservados: seis dos nove volumes do conjunto são mantidos pelo Acervo da EBC. O trabalho de restauração começou em 2018, quando os roteiros foram tirados do arquivo. Ainda naquele ano, este acervo ganhou o certificado Programa Memória do Mundo da Unesco, reconhecido por reunir documentos relevantes para a memória coletiva. Os cadernos foram restaurados e digitalizados, em um trabalho que durou seis meses, como conta a gerente de Acervo da EBC, Maria Carnevale.

Os originais passaram por higienização, conservação, indexação para, enfim, receberem uma nova encadernação. A cópia digital do material poderá ser fonte de pesquisa e de divulgação da obra, mantendo o material em papel preservado.

Continuidade do sucesso -  Após o boom das radionovelas nos anos 40 e 50, veio a chegada da televisão. Os radioatores migraram para a telinha e o número de novelas radiofônicas foi diminuindo com o passar do tempo. Mas o formato ainda faz sucesso, como conta a jornalista e autora de radionovelas Artemisa Azevedo, que trabalhou durante mais de 40 anos na Rádio Nacional da Amazônia. Na região, a relação dos ouvintes com as histórias narradas pelo rádio manteve-se muito próxima. A emissora recebia inúmeras cartas de pessoas que se identificavam com as tramas.

Autora de muitos sucessos veiculados na emissora, como Amazônia, Turmalina e Passageiros da ilusão, Artemisa percebeu desde o início que histórias com temáticas ligadas ao povo amazônico atraíam mais ouvintes. Assim, as radionovelas se tornaram um meio de informação importante e mudaram também vidas, como relata a jornalista.

NOVOS CAMINHOS - O acesso à produções ficou mais fácil. As radionovelas ganham outra roupagem e se reinventam em novos formatos, como a audionovela. Uma delas é Atlântida - uma radionovela, do projeto Arte em Cena, do Sesc Rio. É uma adaptação do espetáculo musical Atlântida – O Reino da Chanchada, lançado em 2001, para a linguagem da audionovela. A produção é transmitida em plataformas de streaming.

Ana Velloso, autora e atriz da audionovela, contou que as gravações foram feitas no palco do Teatro Cesgranrio. Para ela, a audionovela é outra forma de consumir cultura e propagar a arte em tempos de pandemia. Com um estilo mais dinâmico, as audionovelas têm capítulos mais curtos que as originais e os episódios são disponibilizados todos ao mesmo tempo, uma tendência das plataformas de conteúdo sob demanda. É a evolução das radionovelas, agora mergulhadas na era digital.


Autor: Renata Batista com Agência Brasil


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